A volta ao trabalho depois da licença maternidade: culpa, cansaço e sobrevivência

foto de um bebe na creche

Desde a semana passada, Cezar começou a frequentar a creche. Coloquei uma semana antes de voltar a trabalhar, pensando na adaptação do meu pequenininho, mas, antes da data oficial, a própria creche marca alguns dias de adaptação.

No caso de Cezar, foi uma semana antes da data oficial de começar a creche: um dia pela manhã e outro dia pela tarde.

Eu estava ansiosa e ao mesmo tempo tensa. Era um mix de sentimentos que eu não sei explicar, acho que é aquele clichê: só as mães vão saber mesmo.

Não sou o tipo de mãe super apegada, acredito, sinceramente, que sou o contrário. Se confio na pessoa, deixo meu filho sem pensar duas vezes. Foi assim com os avós, com minha sobrinha etc., etc. Mas creche é aquela coisa, né? É uma obrigação, você tem que deixar mesmo sem conhecer completamente quem vai lidar com seu filho o dia inteiro.

Eu sei que as educadoras têm responsabilidades e é nisso que toda creche se baseia, mas, ainda assim, é uma pessoa que não está no seu convívio que vai cuidar do seu tesourinho. Será que elas vão dar a mamadeira do jeito que ele gosta? Será que vão deixar ele dormir bem? Será que vão querer que ele só durma?

E, para mim, agrava por uma questão: meu filho precisa de estímulo, mais que os outros bebês. Será que vão permitir que ele tenha isso? Não quero que ele fique somente em uma cadeira, quero ele livre para se movimentar, para se chatear, para aprender e superar os limites. Não é só que eu quero, ele PRECISA.

Então, nos primeiros dias, eu fiquei, sim, pensando em largar tudo. Viver para dar a oportunidade de o meu filho crescer e ser "normal", mas também me pesa a parte de eu ter minha vida. Meu trabalho, mesmo que não seja o melhor do mundo, é meu. Ter minha vida além de ser mãe. Agora sou EU que preciso.

A maternidade é um trabalho muito árduo e sem folgas, muitos parceiros não entendem isso. Estar em casa não significa estar sem fazer nada. É estar em estado de atenção 24h, desde que o bebê acorda e mesmo depois de dormir.

Meu marido tem dificuldade de entender isso, especialmente quando eu peço algumas horas para mim. Já tivemos inúmeras discussões por isso e só passa quando eles precisam ficar um dia com o bebê e compreender que não dá pra fazer tudo.

Você tenta cozinhar e tem que parar. Eu já queimei algumas panelas por isso. Você está tomando banho e tem que decidir se corre para acalmar o choro ou ignora e se sente mal por isso. Alimentar um bebê que está aprendendo não é comer em 20 minutos como os adultos normais, leva tempo... muito tempo! Você começa a lavar os pratos e o bebê faz cocô, você separa as roupas pra colocar na máquina e lá vem ele chorando de novo. Pra mim, maternar e cuidar de casa é um eterno acúmulo de tarefas inacabadas. O guarda-roupa vai ficar para outro mês, o banheiro vai aguentar outro dia... Nem sei a última vez que o cesto de roupa limpa ficou vazio. É tirando do varal e colocando lá, porque dobrar, separar, demanda tempo que a gente não tem.

E quando a gente não foi criada nesse mundo de viver SÓ para isso, é muito difícil se adaptar.

Eu passei algum tempo para conseguir digerir que querer voltar ao trabalho não era abandonar meu filho para ser criado por olhos alheios. Porque, assim como ele faz parte de mim, trabalhar também. Ainda mais sendo imigrante, que a gente tem a vida social já tão limitada, não ter uma das principais fontes de socialização é de deixar a gente doido.

Ainda mais quando esse tempo feio não ajuda.

Quando eu tive que voltar à empresa para organizar a minha volta, eu me senti bem. E olha que eu estou à procura de um novo emprego rs rs rs

-x-

UPDATE DEPOIS DE 1 SEMANA TRABALHANDO

Mas voltar a trabalhar não foi nada legal. Já no caminho eu me perguntava se valia mesmo a pena largar meu filho para poder ir trabalhar, especialmente porque não é nenhum trabalho dos sonhos. Acho que justamente por isso também. Quando eu pisei o pé, tudo o que eu queria era voltar pra casa e praguejei esse sistema capitalista que faz a gente precisar de um papel — e agora só um número num aplicativo — para sobreviver.

Tipo, pra ter tempo de qualidade com meu filho, eu preciso vender meu tempo para os donos da empresa poderem ter tempo de sobra com os filhos deles. Injusto, para dizer o mínimo.

Hoje é o terceiro dia e eu faltei. Não tinha condições mentais de lidar com essa realidade, o trabalho continuou o mesmo, mas eu mudei demais. Não estou mais com paciência para lidar com as picuinhas de pessoas que não têm nada a mais na vida para se preocupar, então eu decidi recuar. Deixei à disposição meu lugar de líder de equipe e vou continuar trabalhando na produção, sendo só mais uma na multidão.

E, pela primeira vez em muito tempo, isso não parece derrota.

Parece sobrevivência.

Parece entender que, nesse momento da minha vida, eu não preciso provar nada para ninguém.

Eu só preciso encontrar uma forma de existir entre quem eu era antes da maternidade e quem eu me tornei depois dela.

Comentários

Postagens mais visitadas