O sistema de saúde dos Países Baixos é uma bagunça - como eu me tornei mãe aqui
A gente acha que nunca vai precisar entender como funcionam certas coisas no novo país onde decide viver, né? Mas quando eu engravidei aqui nos Países Baixos e escolhemos ter nosso bebê na Holanda, fomos obrigados a aprender — na prática — como realmente funciona o sistema de saúde holandês.
Como funciona na Holanda
O processo começa de forma simples. Aqui, diferente do Brasil, você não pode ir direto a um especialista. Tudo passa primeiro pelo GP (huisarts), o médico da família. Ele analisa seu caso e decide se você realmente precisa ser encaminhada para um especialista — se ele achar necessário.
Na maioria das vezes, eles não acham.
O meu, por exemplo, não costuma solicitar muitos exames. Em compensação, não é econômico na hora de prescrever medicamentos.
Durante a gravidez, o acompanhamento é feito pela midwife (parteira), que é a profissional responsável pelo pré-natal na Holanda. Mas muitas vezes eu ficava confusa: não sabia se determinado sintoma era da gravidez ou se eu estava passando mal por outro motivo. Ligava para a midwife e, em várias situações, ela me orientava a procurar o GP, porque não poderia fazer nada.
É confuso.
Parto na Holanda: o que ninguém te conta
Durante a gravidez, todo o acompanhamento é feito pela midwife. Porém, se você decide tomar anestesia no parto, automaticamente passa a ser atendida por uma equipe hospitalar diferente — completamente desconhecida.
Foi o que aconteceu comigo.
Quando minhas contrações ficaram mais próximas e eu atingi 6 cm de dilatação, fui autorizada a ir para o hospital. Até então, precisei ficar em casa esperando o momento certo.
Aqui muitas mulheres tem os filhos em casa mesmo. Mas eu não tive essa coragem.
Fiquei quase 14 horas em trabalho de parto no hospital, enquanto não tinha evolução de dilatação, nada, e conheci cerca de três equipes diferentes na ala obstétrica. Olhando agora, isso é extremamente desgastante. Você está vulnerável, ansiosa, tentando relaxar para seu bebê nascer, e a cada troca de plantão precisa ouvir uma nova apresentação: nova enfermeira, nova midwife, novo ginecologista.
Quando tudo o que você quer é ter intimidade suficiente para dizer: “Eu não aguento mais.”
Complicações no parto e UTI neonatal
Quando meu filho nasceu, ele precisou ficar na incubadora por dois dias. Já estávamos no quarto, esperando alta, quando ele teve convulsões durante a madrugada e foi levado para a UTI neonatal.
Como moramos mais perto da Bélgica, ele foi transferido para a Antuérpia, não para Rotterdam.
Recebi alta no mesmo momento, recém parida, sem ser examinada. E, ainda, não pude ir na ambulância com meu filho, que foi sozinho para outro país.
Ali eu levei o primeiro choque, como que deixaram um recém nascido ir para outro hospital sem a mãe ou o pai?
Na Bélgica, os médicos solicitaram diversos exames — para ele e para nós — para investigar a causa do AVC neonatal. Não temos histórico familiar, então fazia sentido investigar. Eles só não podiam fazer lá porque o plano de saúde era holandês e não cobria esses exames em outros países, pois não eram emergenciais.
Quando finalmente conseguimos consulta com a neuropediatra em Roterdã, a resposta foi direta:
“Não há histórico. Já aconteceu. Para que fazer exames em vocês? Vou avaliar se precisamos fazer mais exames nele.”
Spoiler: não era necessário.
Hoje eu preciso aceitar a estatística de que, em cerca de 30% dos casos de AVC neonatal, que foi o que aconteceu com meu filho, mesmo com a medicina moderna, não há explicação.
A dificuldade do acompanhamento pediátrico na Holanda
Meu filho ficou duas semanas internado. Lá na Bélgica, nos explicaram que o acompanhamento não poderia continuar por questões do seguro de saúde holandês. Fomos encaminhados para um neuropediatra em Roterdã e deveríamos ter consultas mensais com o pediatra no hospital da nossa cidade.
Achei que as consultas seriam agendadas automaticamente.
Ingenuidade minha.
Recebemos alta com a promessa de que entrariam em contato.
Esperei, esperei, esperei...
Aí precisei ir novamente à emergência com meu bebê de apenas 3 semanas — e, mais uma vez, fomos enviados para a Bélgica.
Os próprios médicos belgas não entenderam o motivo. Disseram que o acompanhamento já deveria estar acontecendo na Holanda. O médico que nos atendeu mandou uma carta para os especialistas da Holanda, educadamente revoltada. E só aí tivemos a primeira marcação com a pediatra e com a neurologista..
A consulta com a pediatra deveria ser mensal, certo? Era o que me haviam dito na Bélgica, mas depois da primeira consulta teve muita insistência, ligações e e-mails, mas só quando notei mudanças que me preocuparam e entrei em contato diretamente com a neurologista, a pediatra também se manifestou.
No final da consulta, ouvi novamente:
“Nós entraremos em contato para marcar a próxima.”
Perguntei quando? Abril.
De qual ano? Só Deus sabe.
A neurologista disse que o retorno seria em maio.
De que ano? Também não ficou claro.
PS: retorno da neurologista já foi marcado - para Junho
O que aprendi sobre morar na Holanda e ser mãe aqui
No meio de tudo isso, aprendi que morar fora não é apenas aprender o idioma, pagar impostos e entender o clima. É também aprender a lutar pelo básico.
No sistema de saúde dos Países Baixos, se você não liga, não insiste, não questiona, você simplesmente espera. E quando se trata de um filho, esperar pode ser angustiante demais.
Aprendi que protocolo não é sinônimo de cuidado.
Que sistema organizado não significa sistema humano.
E que muitas vezes você precisa ser a voz firme quando o outro lado fala baixo demais.
Ser mãe na Holanda me tornou mais forte, mais atenta e, principalmente, mais insistente.
Aceito que nem tudo tem explicação. Aceito que talvez nunca saibamos a causa do AVC neonatal do meu filho. Mas não aceito mais silêncio, demora e descaso disfarçado de eficiência.
Morar nos Países Baixos me ensinou muitas coisas.
Mas a principal delas foi esta:
Ninguém vai lutar pelo seu filho como você.
E se eu precisar ligar mil vezes, atravessar fronteiras ou bater em portas que não querem abrir, eu vou.
Porque agora eu entendo como o sistema funciona.
E ele vai ter que funcionar para mim também.



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