Como é trabalhar com refugiados da guerra da Ucrânia: uma lição sobre empatia e humanidade

colegas de trabalho multiculturais na Holanda incluindo refugiados ucranianos


   Quando entrei na empresa onde trabalho hoje, sabia que era um ambiente multicultural. Imaginava sotaques diferentes, hábitos curiosos, histórias de outras partes do mundo. Mas não imaginava que estaria lado a lado com pessoas que vieram fugidas de uma guerra, os refugiados da guerra da Ucrânia.



Guerra parece distante… até ela sentar ao seu lado no trabalho

trabalhadores ucranianos refugiados trabalhando na Europa



A guerra na Ucrânia sempre esteve ali, nas notícias. Acompanhamos de longe, por telas. Mas até que ponto conseguimos realmente entender o que ela significa?

A guerra da Ucrânia começou em 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia, mas ganhou proporções muito maiores em 2022, quando o país foi invadido em larga escala. Desde então, milhões de ucranianos foram forçados a deixar suas casas e buscar refúgio em outros países da Europa.

Ver as notícias de um conflito a milhares de quilômetros de distância é uma coisa. Conviver diariamente com pessoas que viveram esse terror — e que estão recomeçando do zero — é algo completamente diferente.

Quando a Rússia invadiu a região de Donbass, em 2022, eu não parei pra pensar no impacto disso na vida das pessoas comuns. Gente que, até ontem, levava uma rotina normal: casa, trabalho, escola dos filhos, planos pro futuro.

Eu achava que estava deixando toda uma vida quando me mudei para cá, mas foi só quando comecei a trabalhar com dezenas de ucranianos refugiados que compreendi o que realmente significa deixar tudo para trás.

Eu ainda tenho uma terra, um lugar para voltar, a casa da minha mãe, minha família, mas de muitos dos meus colegas foi literalmente destruído o mais importante: um vínculo com a terra natal. 

De que vale voltar, quando se volta para o nada.


Recomeçar do zero em um país estranho

refugiado chegando a um novo país com mala


A maioria dos meus colegas de trabalho ucranianos chegou à Holanda sem falar inglês ou holandês. E se pra mim, que já tinha algum domínio do idioma inglês, a adaptação foi difícil, fico imaginando o que eles passaram.

Sem entender os formulários. Sem saber onde pedir ajuda. Sem conseguir se expressar — nem mesmo para pedir informações básicas.

E mesmo assim, eles seguiram em frente. Trabalhando. Tentando aprender. Tentando se reconstruir.


Imigrantes e o peso do preconceito

Infelizmente, como em tantos lugares do mundo, os imigrantes ainda são os primeiros a levar a culpa quando algo não vai bem. E isso também se aplica à Holanda.

Apesar de muitos holandeses serem acolhedores, o comportamento reservado às vezes pode soar como rejeição. E sim, há julgamentos. Há quem diga que "vieram tirar vantagem", sem conhecer a história, sem imaginar o que perderam.

A guerra já tirou quase tudo deles. Ainda assim, muitos precisam, diariamente, provar que "merecem" estar aqui.


O que aprendi com essa convivência

colegas de trabalho conversando em ambiente multicultural


Conviver com pessoas que fugiram da guerra da Ucrânia me ensinou muito. Sobre empatia, sobre resiliência, e sobre o poder da escuta.

Empatia não é ter pena. É conseguir se colocar, de verdade, no lugar do outro. Entender que ninguém escolhe deixar tudo pra trás. Que ninguém quer depender dos outros pra sobreviver. Mas que, às vezes, é a única opção, a última opção.

Essas pessoas me mostram, todos os dias, que a dignidade humana resiste mesmo diante do pior cenário. Mesmo aquelas pessoas que eu não me dou tão bem, ainda assim procuro separar as coisas e exercitar a compreensão.


A guerra pode estar longe geograficamente, mas a humanidade está ao nosso lado

    Talvez a gente não possa impedir os conflitos do mundo. Mas podemos, sim, escolher como olhamos para o outro. Podemos agir com mais respeito, mais paciência e mais cuidado. Porque nunca sabemos o que a pessoa ao nosso lado já viveu. Nunca sabemos de que guerra — literal ou interna — ela precisou fugir para chegar até aqui.

    E se é verdade que viajar transforma, conviver com pessoas que já perderam quase tudo é um lembrete poderoso de que o mundo é feito de histórias que precisam ser escutadas com o coração aberto.

    Especialmente em um momento tão delicado como o que vivemos agora, em que as tensões globais voltam a ocupar as manchetes e a sensação de instabilidade parece cada vez mais próxima. São tempos que nos pedem, mais do que nunca, que lembremos da nossa humanidade, da nossa racionalidade e do simples fato de que escalar conflitos raramente leva a vitórias reais, sempre termina com todos perdendo algo pelo caminho.

  

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